
O que foi o encontro de Washington?
O governo brasileiro voltou para casa em estado de quase euforia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu o evento como histórico. O ministro da Fazenda Guido Mantega apontou vários pontos positivos na resolução final.
Não é complexo de águia de Haia. O Brasil presidiu o G-20 até a realização do encontro, o Itamaraty sempre foi um de seus grandes animadores, e boa parte das proposições brasileiras foram colocadas no comunicado final.
Brasília acredita que depois deste encontro o G-20 — onde países emergentes desfrutam de direitos iguais aos dos países desenvolvidos — tornou-se o principal forum para discussão dos rumos da economia mundial. Se o futuro confirmar essa previsão, será uma ótima notícia para o Brasil, que terá musculatura e audiência para debater problemas internacionais, embora seu poder de fogo, hoje, esteja longe de nações como China e Índia.
Mas o encontro também foi um evento nota 10 de comportamento.
Num ambiente econômico cada vez mais difícil, os participantes evitaram expor diferenças e divergências. Despediram-se trocando elogios mútuos e sublinhando pontos de concordancia — o que é natural numa situação em que ninguém quer elevar as incertezas nem diminuir o já baixo grau de confiança na economia.
Mas, como disse o Wall Street Journal, o encontro aprovou “promessas” e não chegou a dar passos concretos para enfrentar a pior crise do capitalismo em três gerações. Pode-se reconhecer que não era possível ir além disso mas essa é a realidadade.
A recuperação da economia mundial, que se agrava dia após dia, exige imensos investimentos, em quantias que vão além da capacidade de entendimento de um cérebro humano comum, como o meu, por exemplo.
Especialistas de economia internacional falam alguma coisa como 1% e 2% do PIB mundial, estimado em US$ 55 trilhões em 2005.
Isso seria equivalente a soma de toda riqueza produzida pela economia de um país como o Brasil, Inglaterra ou Italia.
Mas o encontro, que reuniu países que respondem por 85% da riqueza mundial, não assinou um único cheque. A rigor, não foi realizado para isso.
Convocada por George W. Bush, a cúpula de Washington foi preparada em poucas semanas. Reuniu governos diferentes, com pensamento diverso e em situação política oposta.
Dois exemplos: Bush é um presidente em fim de mandato, impopular, em posição de fraqueza absoluta.(Barack Obama, o presidente eleito, estava presente na condição de espectro. Ficou em seu bunker em Chicago, enviou emissários para conversas paralelelas e no fim deu uma declaração de apoio reconhecendo que esta é a maior crise de nosso
tempo e que requer uma ação “coordenada” entre os países).
Já o primeiro ministro Gordon Brown, que chegou a ser visto como uma espécie de Bush da Inglaterra, candidato derrotadíssimo em qualquer eleição futura, aproveitou a chance para exibir sua nova identidade. Depois que teve a idéia de nacionalizar o sistema bancário — sugestão que causa horror aos republicanos de Bush mas foi a melhor proposta lançada até o momento em qualquer país – Brown recuperou uma autoridade interna e externa que nunca tivera até então.
O Financial Times atribui a pressão de paises europeus, onde Gordon Brown tem um papel importante, mas não menos o que o frances Nicholas Sarcozy, a aprovação de boa parte das resoluções do encontro. Sem dar nomes, o comunicado conjunto menciona a incapacidade de determinados governos para evitar a crise — numa crítica óbvia aos Estados Unidos.
As principais propostas do comunicado, que tem cinco páginas e na prática é o único saldo prático do evento, definem temas para discussão futura entre os países.
O texto fala em regulamentar o sistema bancário, em controlar agências de risco e os salários de executivos de bancos e ainda faz referência aos derivativos — menção importante que surpreendeu os negociadores brasileiros.
São temas de consenso produzidos pela crise mas não há sugestões concretas para resolvê-los. A partir de agora serão formados grupos de trabalho que vão começar a
encaminhar uma discussão demorada, complicada e difícil — pois envolve a autonomia do sistema financeiro de cada país. O próximo encontro está marcada para 30 de abril.
Um observador mal humorado avalia que esses assuntos envolvem tanto debate que, quando a maioria das questões estiver resolvida no plano teórico, a crise econômica já terá acabado no terreno prático e ninguém mais terá interesse nesses assunto. É uma visão pessimista ou pessimista — a depender do prazo das discussões e do prazo da crise.
A questão é que o encontro debateu normas e estruturas para o futuro da economia mundial — mas a situação presente é tão grave que a única questão urgente e relevante envolve investimentos em dinheiro em cada país.
É nesse terreno que se poderá ganhar a batalha para tirar o mundo de uma recessão. Também é uma area em que o G-20 não tem muito o que fazer a não ser
pronunciar frases genéricas — pois cada país tem seu governo, eleito para decidir o que é melhor para a própria economia. O máximo que pode fazer é pedir ajuda aos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, que vão precisar de reforço de caixa se tiverem de jogar um papel de maior relevo na crise.