Formulário de Busca

É Roosevelt? É Lincoln? É Obama.

Qua, 19/11/08
por Paulo Moreira Leite |

As principais revistas semanais americanas conseguiram produzir dois retratos da perplexidade do país diante da crise econômica e do governo de Barack Obama, que toma posse em 20 de janeiro.

time1.jpgA Time fez uma montagem na capa onde Obama aparece usando o chapéu e a piteira que foram marca registrada de Franklin Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos que venceu a Depressão e lançou as bases para a economia do país nas décadas seguintes.

A Newsweek fez uma capa que mostra Obama ao lado de Abraham Lincoln, o presidente que enfrentou uma guerra civil para garantir a unidade do país e aboliu a escravidão.

A Guerra Civil foi o mais violento conflito da história dos Estados Unidos. Morreram mais de 900 000 pessoas, o equivalente a 3% da população americana naquela época.  Iniciada em 1861 e encerrada em 1865, a guerra deixou marcas eternas na vida política e cultural dos Estados Unidos.

Vitorioso, Lincoln é um dos heróis nacionais. Seu rosto se encontra na nota de 5 dólares, seu perfil está espalhado pelo país inteiro. Seus discursos são lidos e estudados nas universidades e pelos políticos. O nome Lincoln é até marca de um automóvel de luxo, usado por parte dos presidentes americanos. Uma biografia recente ocupou a lista dos livros mais vendidos.

newsweek1.jpgAs duas capas ajudam a entender o tamanho da crise que o país enfrenta.

Quando Roosevelt entrou na Casa Branca, o desemprego estava em 25% e a economia vivera quatro anos de recessão. Nos quatro primeiros anos de seu mandato, a economia cresceu a uma média de 8% ao ano. Enfrentou uma nova crise em 1937 e 1938, mas retomou o crescimento - em índices de 10% ao ano - no fim da década, já sob estímulo da industria bélica que venceu a Segunda Guerra Mundial.

Num país onde existem especialistas em história presidencial, os historiadores tem um consenso em torno dos melhores presidentes. São três: George Washington, que liderou a revolução pela indepedência. Os outros dois são Lincoln e Roosevelt.

Ao colocar Obama ao lado de Lincoln e Roosevelt, as duas revistas mostram o tamanho do desafio que ele vai enfrentar.

Mas há um lado nesse exercício que é chocante. Hoje, Roosevelt e Lincoln são personagens que já realizaram suas obras. Chegam até nós como presidentes acabados e vitoriosos — como lições positivas de um livro de história.  Não são pessoas de carne-e-osso, ainda em construção — como Obama.

Só se falou bobagens sobre sobre a saída de Protógenes

Qua, 19/11/08
por Paulo Moreira Leite |
categoria 1

A Folha de hoje mostra em detalhes os diálogos ocorridos a reunião na qual o delegado Protógenes Queiróz perdeu o comando da Operação Satiagraha, aquela que levou o banqueiro Daniel Dantas para a cadeia.

Conclusão: ninguém falou a verdade sobre o caso.

Não custa lembrar que até o presidente Lula entrou na discussão.

Para afastar qualquer suspeita de que o governo tivesse pressionado para tirar o delegado das investigações, Lula gravou uma entrevista à TV dizendo que Protógenes tinha o dever moral de continuar no caso — e que, se decidira pedir afastamento, deveria deixar isso claro para o país.

Por determinação de Lula, a Policia Federal divulgou um trecho de quatro minutos de gravação da reunião — de duas horas e 50 minutos — em que a saída de Protógenes foi resolvida.

O próprio delegado disse na época que ia embora por livre e espontânea vontade. Alegou que iria realizar um curso interno, para o qual se matriculara com meses de antecedência.

Seus superiores repetiram a mesma coisa.

A Folha, que teve acesso a uma fita com as quase duas horas e 50 minutos de encontro, confirma aquilo que todos suspeitavam mas ninguém havia demonstrado: Protógenes fez o possível para ficar no cargo mas os delegados fizeram o impossível para tirá-lo do caso. Ganharam.

Não teria sido muito melhor se todos tivessem falado a verdade desde o início?

É claro que sim.

O problema é que isso não interessava a ninguém.

A polícia não queria dar a impressão de que perseguia um delegado que havia realizado uma operação capaz de prender um banqueiro — proeza rara neste país onde a impunidade tem distintivo de classe social.

Lula não queria que se pensasse que seu governo protege ricos e banqueiros.

O próprio Protógenes jamais foi absolutamente claro sobre as razões de sua saída.

Não há dúvida que ele fez uma investigação desbravadora e competente, em vários aspectos.

Mas escreveu um relatório excessivamente politizado e estimulou um comportamento exibicionista.

Com tantos interesses, quem iria querer falar a verdade, não é mesmo?

Washington reflete um novo espírito no mundo

Ter, 18/11/08
por epoca |

É fácil demonstrar por 1+1=2 que a situação do mundo não passou por nenhuma mudança real depois do encontro de 22 países em Washington.

É fácil mas não está inteiramente certo. O encontro refletiu um novo espírito no mundo – e isso é importante.

Vamos ser claros: a humanidade precisa, por baixo, de um cheque equivalente a 2% do PIB mundial para começar a pensar em reanimar a economia, deixar o ambiente de recessão e escapar do risco de depressão. (Estamos falando em dinheiro de verdade não em derivativo).

Ninguém entregou esse dinheiro e não se sabe como nem quando irá fazê-lo.

A crise deve continuar como está e ninguém fala em recuperação antes de um ano e meio.

E quem fala neste prazo não põe a mão no fogo. Prefere lavar as mãos e não assumir nada.
O ambiente é esse, mas a reunião de Washington mostrou uma vontade de agir em conjunto que não deve ser desprezada.

O espírito mudou – e só isso explica, por exemplo, que um presidente como George W. Bush seja obrigado a deixar seus escrúpulos de advogado da economia de mercado para aceitar uma intervenção do Estado. Ou que seu governo tenha concoordado em assinar uma nota recheada de referências a erros cometidos em “países centrais” que permitiram a explosão da crise. 

Antes mesmo do encontro os bancos centrais já agiam de forma coordenada, o que explica a decisão conjunta de rebaixar a taxa de juros. Essa tendência foi reforçada em Washington e terá repercussão em vários lugares, inclusive no Brasil. Será cada vez mais difícil para Henrique Meirelles manter os juros no patamar em que se encontram. Cedo ou tarde, eles terão de cair – sem fazer barulho, com toda naturalidade.

É um pedido de Guido Mantega?

Não.

É um sinal dos tempos.

Organismos como o Banco Mundial, o Fundo Monetário e o Banco Interamericano de Desenvolvimento começam a abrir as portas dessa nova situação mental – digamos assim.  Eles precisam de um aumento em suas reservas, proporcional ao papel que devem desempenhar numa situação como a atual, ajudando países em necessidade. Ninguém sabe como resolver isso.

Mas seu lugar mudou. Desde a semana passada seus executivos e diretores foram informados de que devem agir em conjunto, sem ações isoladas e sem alimentar projetos divergentes. Devem somar esforços e considerar a conjuntura econômica mundial para tomar decisões.  “Quando entrei numa reunião para discutir isso, percebi: alguma coisa mudou,” me diz um executivo do Banco Mundial.

É um espírito do mundo.

Foi isso que se viu em Washington. 

“Já senti fome na Depressão. Não quero isso de novo”

Ter, 18/11/08
por epoca |

Quando passei pela alfândega americana, o país falava da eleição presidencial e torcia por Barack Obama. Num comportamento que eu nunca tinha visto antes, o policial que examinou meu passaporte queria saber como os brasileiros viam a candidatura democrata. 

Duas semanas depois, quando deixo os Estados Unidos, o ambiente é outro. A conversa também.  

Obama ganhou a eleição mas parece que isso aconteceu há um século. O assunto é a crise.
Os economistas falam de números. As pessoas comuns falam de sua experiência. 

“Já passei fome uma vez. Não quero sentir isso de novo.”

Quem fala assim é Arthur L. Wendell, 71 anos. Trabalhador aposentado, Arthur virou taxista e me leva do hotel para o aeroporto internacional de Washington. 

– O senhor passou fome mesmo?, pergunto. De ir para a cama sem conseguir dormir?

– Não. Mas eu queria comer mais e não tinha para todos em minha casa. Nós éramos cinco crianças, mais meu pai e minha mãe. Tínhamos cupons, e comprávamos comida. Mas não dava para todo mundo.

– Como assim?
 
– Sempre tinha alguma coisa mas era pouco.

– O que o senhor comia?

– Às vezes, eu comia quatro batatas no almoço. No jantar, também tinha quatro batatas. No café da manhã, mais quatro batatas. Não quero mais isso. Nunca vou esquecer essa experiência.

Arthur e seus pais viviam numa fazenda no Sul da Virgínia, estado que foi sede da república confederada, onde a eleiçao de Obama marcou a primeira vitória democrata desde 1964. 

– Como estávamos na fazenda, nós podíamos criar animais e podíamos comer. Lembro da minha mãe fazendo frango, porco. Às vezes, tínhamos bife.

Arthur tinha 3 e 4 anos, na época. Lembra do pai fazendo compras. Conta que, na volta, nem sempre tinha farinha para a mãe fazer pão – ou açúcar para colocar no café.

– Não quero mais isso. Não consigo imaginar que isso vai acontecer – fala Arthur, olhando para a auto-estrada que nos levará ao aeroporto, com aqueles carrões enormes, velozes, silenciosos, confortáveis.

Pela idade, Arthur nasceu na segunda metade da década de 30. Enfrentou anos terríveis para a economia americana, mas passou parte da infância na Segunda Guerra, quando os Estados Unidos entraram num crescimendo acelerado, estimulado pela industria bélica, mas o nível de emprego continuava baixo – só iria retornar ao patamar anterior a 1929 bem mais tarde.

Essa memória da Depressão está presente em várias conversas. Ilustra reportagens com testemunhas do período e estimula comparações com com 1929 e 2008. O país mudou mesmo.

Desculpas para Jango

Seg, 17/11/08
por Paulo Moreira Leite |
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A anistia de João Goulart me encheu de vergonha. Anistia é perdão, esquecimento. Vem de amnésia.

Muita gente até merece ser perdoada no Brasil. Jango não cometeu falta alguma, erro nenhum. Não pode ser acusado de desrespeitar nenhuma lei.

Não sou admirador do ex-presidente nem participo do culto nostálgico de uma personalidade que nunca me pareceu especialmente competente. Mas se alguém merece ser chamado de vítima do regime militar essa pessoa é Jango. Anistia no seu caso é novilíngua – aquele idioma típico dos ditadores, onde verdade é mentira, como explicou George Orwell em “1984.”

Jango era vice presidente da República, posto que conquistou pelo voto direto. Num tempo em que se votava também para vice, foi eleito para formar o governo em companhia de Jânio Quadros, embora fizesse parte de outra composição e tivesse outro
pensamento.

Assumiu o Planalto em 1961, com a renúncia de Jânio, depois de enfrentar uma conspiração militar que queria impedir sua posse. Concordou em governar o país sob o regime parlamentarista e, mais tarde, convocou um plebiscito para retornar ao presidencialismo. Venceu por uma margem tão grande que eu, que tinha menos de 10 anos na época, sabia que o parlamentarismo seria enterrado antes da apuração do primeiro voto.

Jango foi derrubado no golpe de abril de 64 numa quartelada que durou 20 anos, produziu tudo aquilo que nós sabemos e não teve muita sociologia. A desculpa de militares e empresários que articularam o golpe é que ele pretendia montar uma república sindicalista no país. Também diziam que iriam acabar com a corrupção e a subversão.
Nós sabemos o que aconteceu.

A sessão da Câmara que declarou a presidência vaga, no dia do golpe, é um dos momentos mais deprimentes do parlamento brasileiro. A verdade é que o governo Jango tinha apoio popular e as reformas de base que prometia eram aprovadas até em pesquisa do Ibope.
Em 1965 iriam ocorrer eleições presidenciais para sua sucessão e o retorno de seu aliado Juscelino Kubitschek para o Planalto era uma barbada – o que deixava os adversários em desespero, pois era evidente que jamais entrariam em Palácio pelo voto.

Só por essa razão Jango foi derrubado, cassado e perseguido.

Não tinha estatura de herói nem de político capaz de deixar herança intelectual para as gerações futuras. Não ameaçava ninguém.

No golpe, confiou numa resistência que não existia. Traído por chefes militares que lhe deviam lealdade, foi embora do daís quando a derrota se tornou inevitável, o que se descobriu em poucas horas.

Testemunhas que respeito me falam da incompetência de Jango e dizem que dava voz a assessores incapazes e barulhentos.

Fui formado naquela escola política que nasceu na crítica ao nacionalismo de Vargas, do qual Jango era herdeiro. Muitas de suas medidas eram demagógicas e boa parte de suas atitudes eram provocação.

Ele era considerado o representante maior do populismo brasileiro - formulação parcial e genérica ao mesmo tempo, pois nos sabemos que nessa categoria se encontra o petro-ditador Hugo Chávez e também a folclórica Mamãe Ganso Sarah Palin, não é mesmo?

A rigor, isso não importa.

Jango era um representante da vontade popular e ela foi desrespeitada. Isso é um erro e um crime.

Não discuto se a família tem direito a pensão ou não. Acho que deve ter todos os direitos reservados às viuvas e herdeiros de um presidente da República.

Um país que é obrigado a anistiar um ex-presidente da República, que deixou o cargo em função de um golpe militar tem uma longa e triste história para ajustar com
seu dicionário político, concorda?

Encontro de Washington merece nota 10 de comportamento

Dom, 16/11/08
por Paulo Moreira Leite |
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O que foi o encontro de Washington?
O governo brasileiro voltou para casa em estado de quase euforia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu o evento como histórico. O ministro da Fazenda Guido Mantega apontou vários pontos positivos na resolução final.
Não é complexo de águia de Haia. O Brasil presidiu o G-20 até a realização do encontro, o Itamaraty sempre foi  um de seus grandes animadores, e boa parte das proposições brasileiras foram colocadas no comunicado final.
Brasília acredita que depois deste encontro o G-20 — onde países emergentes desfrutam de direitos iguais aos dos países desenvolvidos — tornou-se o principal forum para discussão dos rumos da economia mundial. Se o futuro confirmar essa previsão, será uma ótima notícia para o Brasil, que terá musculatura e audiência para debater problemas internacionais,  embora seu poder de fogo, hoje, esteja longe de nações como China e Índia.

Mas o encontro também foi um evento nota 10 de comportamento.

Num ambiente econômico cada vez mais difícil, os participantes evitaram expor diferenças e divergências. Despediram-se trocando elogios mútuos e sublinhando pontos de concordancia — o que é natural numa situação em que ninguém quer elevar as incertezas nem diminuir o já baixo grau de confiança na economia.

Mas, como disse o Wall Street Journal, o encontro aprovou “promessas” e não chegou a dar passos concretos para enfrentar a pior crise do capitalismo em três gerações. Pode-se reconhecer que não era possível ir além disso mas essa é a realidadade.
A recuperação da economia mundial, que se agrava dia após dia, exige imensos investimentos,  em quantias que vão além da capacidade de entendimento de um cérebro humano comum, como o meu, por exemplo.

Especialistas de economia internacional falam alguma coisa como 1% e 2% do PIB mundial, estimado em US$ 55 trilhões em 2005.

Isso seria equivalente a soma de toda riqueza produzida pela economia de um país como o Brasil, Inglaterra ou Italia.

Mas o encontro, que reuniu países que respondem por 85% da riqueza mundial, não assinou um único cheque. A rigor, não foi realizado para isso.

Convocada por George W. Bush, a cúpula de Washington foi preparada em poucas semanas. Reuniu governos diferentes, com pensamento diverso e em situação política oposta.
Dois exemplos: Bush é um presidente em fim de mandato, impopular, em posição de fraqueza absoluta.(Barack Obama, o presidente eleito, estava presente na condição de espectro. Ficou em seu bunker em Chicago, enviou emissários para conversas paralelelas e no fim deu uma declaração de apoio reconhecendo que esta é a maior crise de nosso
tempo e que requer uma ação “coordenada” entre os países).
Já o primeiro ministro Gordon Brown, que chegou a ser visto como uma espécie de Bush da Inglaterra, candidato derrotadíssimo em qualquer eleição futura, aproveitou a chance para exibir sua nova identidade. Depois que teve a idéia de nacionalizar o sistema bancário — sugestão que causa horror aos republicanos de Bush mas foi a melhor proposta lançada até o momento em qualquer país –  Brown recuperou uma autoridade interna e externa que nunca tivera até então.

O Financial  Times atribui a pressão de paises europeus, onde Gordon Brown tem um papel importante, mas não menos o que o frances Nicholas Sarcozy, a aprovação de boa parte das resoluções do encontro. Sem dar nomes, o comunicado conjunto menciona a incapacidade de determinados governos para evitar a crise — numa crítica óbvia aos Estados Unidos.
As principais propostas do comunicado, que tem cinco páginas e na prática é o único saldo prático do evento,  definem temas para discussão futura entre os países.

O texto fala em regulamentar o sistema bancário, em controlar agências de risco e os salários de executivos de bancos  e ainda faz referência aos derivativos — menção importante que surpreendeu os negociadores brasileiros.
São temas de consenso produzidos pela crise mas não há sugestões concretas para resolvê-los. A partir de agora serão formados grupos de trabalho que vão começar a
encaminhar uma discussão demorada, complicada e difícil — pois envolve a autonomia do sistema financeiro de cada país. O próximo encontro está marcada para 30 de abril.

Um observador mal humorado avalia que esses assuntos envolvem tanto debate que, quando a maioria das questões estiver resolvida no plano teórico, a crise econômica já terá acabado no terreno prático e ninguém mais terá interesse nesses assunto.  É uma visão pessimista ou pessimista — a depender do prazo das discussões e do prazo da crise.

A questão é que o encontro debateu normas e estruturas para o futuro da economia mundial — mas a situação presente é tão grave que a única questão urgente e relevante envolve investimentos em dinheiro em cada país.
É nesse terreno que se poderá ganhar a batalha para tirar o mundo de uma recessão. Também é uma area em que o G-20 não tem muito o que fazer a não ser
pronunciar frases genéricas — pois cada país tem seu governo, eleito para decidir o que é melhor para a própria economia.  O máximo que pode fazer é pedir ajuda aos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, que vão precisar de reforço de caixa se tiverem de jogar um papel de maior relevo na crise.

Escola de filhas de Obama virou debate político. Isso é ótimo

Sáb, 15/11/08
por Paulo Moreira Leite |
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Aquela que parecia a mais inocente das perguntas da primeira entrevista coletiva de Barack Obama depois da eleição transformou-se numa questão política séria. Acho ótimo.
A mesma repórter que perguntou a Obama se ele já havia escolhido o cachorrinho para viver na Casa Branca, uma tradição presidencial, também queria saber aonde suas filhas vão estudar.
Contrariado, o presidente eleito disse que o assunto ainda não fora resolvido entre ele e a mulher, Michelle. Mas ficou claro que o casal pretende colocá-las numa instituição privada, compatível com a escola que frequentam até agora, em Chicago.
O problema é que em campanha Obama fez uma defesa clara e irredutível da escola pública.
Foi tão coerente que condenou a política republicana de pagar uma ajuda à famílias de baixa renda que preferem colocar os filhos em escolas privadas.
E agora?
O assunto já chegou à TV e às páginas dos grandes jornais americanos.
“Irá Barack Obama privar as crianças de (Washington) DC das oportunidades que suas filhas possuem?”, pergunta o Washington Post num editorial, hoje.
O drama adicional é que as escolas públicas da capital americana se encontram entre as piores do país e Washington deu a Obama uma votação consagradora sobre John McCain.
São fatores que tornam a decisão do presidente eleito ainda mais complicada.
É bom.
Também acho que um debate desse tipo poderia ser de grande utilidade em qualquer país — inclusive no Brasil.
Ninguém é obrigado a sacrificar a educação dos filhos — que todos querem sempre que seja a melhor possível — em função de sua coerência política.
Mas um homem público têm o compromisso de zelar, também, pela educação dos filhos dos outros. Não pode conformar-se com privilégios nessa área.
O debate pode ser útil por essa razão.
Obama tem o direito de escolher a melhor escola para suas filhas.
Mas só poderá sair-se bem dessa discussão se assumir compromissos claros de melhoria da escola pública.
Não é uma boa coisa?
Eu acho. E tenho certeza de que um debate parecido faria muito bem ao ensino público no Brasil.
Você concorda?

Economistas só enxergam o querem ver

Sáb, 15/11/08
por Paulo Moreira Leite |
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A gravura acima, do mestre Francisco de Goya, tem o seguinte título: “O sonho da razão produz monstros.”
Acho que é um bom retrato do momento em que vivemos.
Na Epoca desta semana publico uma entrevista com Pamela Cox, vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Região do Caribe.
A novidade é que em abril o Banco Mundial anunciou que a América Latina iria crescer entre 2,5% e 3,5% no ano que vem. Na semana passada, o Banco rebaixou essa previsão
para 2% e 2,5%. Perguntei a Pamela por que isso aconteceu.
Ela explica que, como todo mundo, meses atrás o Banco tinha uma visão otimista da crise e não enxergou sua profundidade nem
extensão.
“Fomos otimistas como todo mundo,” lembrou ela. “Em vez de recordar que a economia mundial está cada vez mais integrada, nós acreditamos que poderia haver um
descolamento entre as diversas economias, dos diversos países. Estava errado. A crise não é igual em todos os lugares mas a integração é cada vez maior. Não vimos
isso.”
Esse comportamento não se limitou ao Banco Mundial, é claro. Envolveu pessoas influentes e também o cidadão comum. No Brasil, empresários importantes, bem
informados e com reconhecidas conexões fora do país, falavam em descolamento das pragas do mundo desenvolvido — idéia que o governo Lula também comprou.

Além daqueles economistas que sempre anunciam catástrofes — o que dificulta saber quem pode ter razão — há menos um exemplo inverso.
Nas altas da Bolsa de Valores, o Jornal Nacional fez árias reportagens. O tom não era de celebração, mas de  advertência, recordando que aqueles ganhos eram momentâneos e perigosos.
Lembro que certa noite o tele-jornal de maior audiência da TV brasileira chegou a falar das vantagens da caderneta de poupança.
Adiantou alguma coisa? Claro que não. Diante da escalada fantástica do Ibovespa, quem iria prestar atenção em más notícias?
Em Washington, o governo levou tempo demais para perceber que o desastre conduzia o país para a pior crise em 80 anos.
Os bancos começaram a fechar suas portas em agosto de 2007 mas durante vários meses parecia que tudo poderia se resolver com reduções na taxa de juros, refinanciamentos de dívidas e outras medidas paliativas.
Reportagens de várias publicações especializadas diziam que bastavam novos remendos para a economia americana voltar a funcionar.
Analistas respeitados adoravam lembrar que “tecnicamente” o país não se encontrava em recessão, pois não havia acumulado dois trimestres seguidos em crescimento negativo. Era até verdade — mas se dizia isso como se fosse uma prova de que não era preciso exagerar
no pessimismo.
Em setembro, quando os bancos de investimento foram à nocaute, a visão oficial na secretaria do Tesouro de Hank Paulson dizia que os “fundamentos econômicos
continuam sólidos,” o que levou o candidato republicano John McCain a pronunciar uma das grandes gafes de sua campanha.
Na Alemanha, o ministro das Finanças reagiu à quebra de Wall Street dizendo que era uma prova de que o poderio americano entrara em decadência e que o mundo se tornara
plural. Nem tanto. Hoje, os EUA estão em recessão, a Alemanha também, e ainda a Grã Bretanha.
Claro que em muitos casos esse comportamento envolve interesses condenáveis e operações espertas. Não é disso que estou falando.
Vivemos uma situação em que um cidadão em pleno gozo de sua saúde mental deveria ser capaz de tomar uma atitude racional, distanciada, com base em dados concretos.
Mas isso não acontece.
Por que?
Porque além de todo o conhecimento técnico, da imensa capacidade de apurar e processar informações, vivemos um mundo de forças irracionais — a começar por esse
universo delicado, incontrolável e poderoso que é a mente humana.
Mesmo pessoas com poder de decisão na economia e na política se deixam levar por impulsos emocionais, interesses que não conhecem, desejos que não controlam e
verdades que não dominam.
Na prática, os alertas estavam diante de todo mundo mas ninguém conseguia enxergá-los.
Fazer isso implicava, no cidadão comum, questionar suas decisões, colocar em dúvida seu conforto e seu futuro, e ninguém gosta de fazer isso.
Para autoridades da economia e da política, implicava em aceitar erros, admitir fraquezas e tomar providências desagradáveis, muitas vezes impopulares.
As responsabilidades são diferentes e não podem ser niveladas como se todos fossem personagem de uma mesma coluna social.
Mas, mesmo em situações diferentes, nenhum animal irracional gosta de abrir mão de uma situação de conforto — ainda que seja possível adivinhar que tudo se apoia numa ilusão.

Essa é a explicação racional para tamanho irracionalismo.
Concorda?

W. é um filme inteligente sobre George W. Bush

Sáb, 15/11/08
por Paulo Moreira Leite |
categoria 1

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Entrei em W. com mais receio do que esperanças. Temia ver um filme idiota sobre George W. Bush.
Assisti a um filme inteligente. W. não bate em cachorro morto. Faz um esforço honesto para contar uma das mais absurdas histórias de nossa época — de um sujeito sem rumo na vida, sem a menor vocação para a vida pública, que trocou a embriaguez alcoólica pelo fanatismo religioso, tornou-se governador do Texas, foi presidente dos Estados Unidos
por dois mandatos e agora se despede da Casa Branca depois de ter sido um dos piores governantes da história americana.
Como isso foi possível?, pergunta Oliver Stone.
O filme tem a esperteza de não oferecer respostas acabadas e evita a agressividade fácil para contar uma  história convincente.

A narrativa é crua, despudorada, apoiada no trabalho de ótimos atores, a começar por  Josh Brolin, que faz o personagem principal. Stone mostra Bush/Brolin em cenas íntimas sem ser invasivo. Retrata momentos em que o futuro presidente foi humilhado na escola por colegas mais velhos e também descreve situações na Casa Branca que evidenciam seu despreparo para entender os problemas do mundo.

Assessores que mais tarde fariam o possível para melhorar a própria biografia são exibidos
em seu arrivismo, submissão ao poder e simples covardia.

Stone não diminui as responsabilidades de Bush mas mostra que ele foi uma construção política que envolveu um sistema frágil, aventureiros de várias famílias e grandes interesses que permanecem na sombra.
Os principais fatos da biografia do presidente americano estão lá: a juventude desorientada; o esforço para agradar o pai e a mãe; a facilidade com que era enganado; uma certa ingenuidade alimentada pelo primarismo ideológico.

Oliver Stone descreve os bastidores de uma política às costas do povo, onde carreiras se resolvem em churrascos, copos de vodka e garrafas de cerveja e muitas conversas em família.

O filme não faz psicologia de botequim, ainda que tenha Freud e Shakespeare. Mostra George W. Bush no centro de uma tragédia com ambição, traição e vontade desmedida de poder.

O protagonista é um ser humano e vazio, cruel e infeliz, desembaraçado e muito perigoso.

Reproduzindo uma cena real da passagem de Bush pela Casa Branca, o filme mostra o momento em que uma repórter lhe pergunta como imagina que será seu lugar na história –  o presidente responde que isso não tem importância porrque, quando a história chegar, estará morto.

É o non-sense no poder.

Precisa de mais? Acho que não.

 

A origem desta crise é uma farsa

Qui, 13/11/08
por Paulo Moreira Leite |
categoria economia

Diante da mais nova apariação de Henry Paulson na TV, para anunciar mais uma utilidade para um pacote de US$ 700 bilhões de dólares que até o momento não conseguiu ter grande serventia, eu queria confessar uma coisa: os pacotes bilionários já não me deixam indignado — me  enchem de tédio.

Sabe por quê?

Porque este fracasso era previsível e inevitável. Estou tão entendiado que não tenho ânimo para desenvolver raciocínios sofisticados nem para lembrar que o mundo é complexo. Tenho inveja de quem sente raiva. Cansei.

Qualquer cidadão que já tentou entender o funcionamento daquilo que se chama mercado aprendeu que em seu núcleo funciona um regime de alta irracionalidade, que movimenta verdades aparentes e realidades enganosas.

Pergunte a seus pais, a seus avós, leia as enciclopédias, talvez os almanaques. Pode ser que não exista outra forma para a economia criar progresso e prosperidade. Vamos combinar que talvez o capitalismo seja mesmo o pior sistema econômico com exceção de todos os outros. Mas não vamos nos enganar. Não é assim que a economia mundial vai sair do fundo do poço.

A história se repete ao longo dos pacotes — ao contrário do que gostam de dizer aqueles que não costumam ir além dos primeiros parágrafos de obras clássicas do pensamento político. Há três décadas, o discurso que enxergava no egoísmo do mercado a base para a criação de uma vida segura e próspera não expressava apenas uma visão errada das coisas. Erros se discutem e se corrigem. Esse discurso expressava uma farsa e uma fraude.

Já fora desmetido pela história e ridicularizado por crises e catástrofes sucessivas que acompanham a evolução da humanidade. Havia uma certeza entre quem falava e quem ouvia, um único compromisso honesto: os dois lados sabiam que eram palavras falsas e vazias.

Paulson é um homem de mercado que foi para casa com US$ 600 milhões de patrimônio pessoal depois de fazer carreira em Wall Street. Convidado para assumir o Tesouro americano, livrou-se de pagar imposto de renda sobre essa quantia, o que lhe garantiu um ganho extra de US$ 150 milhões.

No governo, tomou diversas iniciativas. Nenhuma deu certo. Quando enxergou a crise, o mundo estava desabando. Esse comportamento me deixa irritado. Ou revela ignorância — o que não ajuda. Ou expressa uma inocência dissimulada — o que é ainda pior.

Minha única esperança é que no futuro seja possível ser um pouco mais honesto — no fim deste pesadelo imenso, que talvez só esteja começando.


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